Angelica: a nova voluntária italiana conta a sua chegada na Cáritas

Depois de uma longa espera burocrática, o mês passado cheguei em Crateús, uma cidade da região geográfica chamada Semiárido Brasileiro, que se estende por todo o Nordeste e parte de Minas Gerais, e que está sofrendo a pior seca dos últimos cem anos. Estou aqui porque durante oito meses estarei a serviço da Cáritas Diocesana de Crateús.

A viagem de ônibus de Fortaleza até minha futura cidade está repleta de estrelas, e olhando para a escuridão eu imagino o que verei no dia seguinte, quando o sol nascer. Admito que estou emocionada e ansiosa para chegar, mas ao mesmo tempo um pouco assustada. Eu me pergunto acima de tudo, como serão meus futuros colegas? Conseguirei entender o português e me fazer entender? Eu vou estar à altura das tarefas que eles vão me dar? Encontrarei pessoas que me estimulem com novas ideias e diferentes costumes? Todas as primeiras inseguranças desaparecem ao ver o rosto sorridente e simpático que me saúda na rodoviária. É Lilì, uma agente Cáritas, que com um forte abraço e uma boa conversa consegue me deixar à vontade num piscar de olhos.

Meu Servizio Civile é dedicado ao projeto Pescadoras e Pescadores artesanais construindo o bem-viver, nascido da colaboração entre a Cáritas de Crateús, o CISV e o Conselho Pastoral dos Pescadores e com a ajuda financeira da União Europeia e da Conferenza Episcopale Italiana. Crateús não tem o mar, os beneficiários do projeto são pescadoras e pescadores de açudes, construções artificiais projetadas para estancar as águas dos rios em grandes represas, que têm a aparência de lagos.

Infelizmente a vida dos pescadores artesanais, como a  dos pequenos agricultores, não é fácil em uma região onde o estado de emergência causado pela falta de água é uma rotina, as famílias têm que racionar o uso de água, e o gado morre desidratado.

Além dos problemas climáticos, os pescadores artesanais de água doce são uma categoria ainda mais em risco devido a um estado de total invisibilidade e abandono das instituições, o que favorece o enfraquecimento da identidade da pesca artesanal. Esses dois fatores, a seca e a falta de políticas para salvaguardar a sobrevivência dos pescadores, penalizam enormemente a situação social e económica, já caracterizada por altos níveis de pobreza, analfabetismo e violência de gênero.

A minha equipe trabalha para reafirmar e dar visibilidade à identidade de pescadoras e pescadores, já que muitas vezes eles e elas são impossibilitados de reivindicar seus direitos por falta de informação e porque estão excluídos dos espaços de representação, assim como das atividades das associações de pescadores artesanais locais. Além disso, tentamos destacar e reconhecer o papel das mulheres pescadoras em uma região onde o machismo e a violência doméstica, patrimonial e psicológica das mulheres é generalizada.

Muitas são as coisas para fazer no escritório e as viagens de campo são cansativas. Tantas horas para chegar até comunidades isoladas, o entusiasmo das pessoas quando percebem que sou estrangeira e as risadas dos jovens quando ouvem o meu português é muito engraçado. Essa é a situação que vivi as primeiras semanas; mas minha vida aqui também é caracterizada por novas amizades, pela capoeira, pela música do forró, pela comida que ainda me assombra e pelo calor abafante. A vida em Crateús é acompanhada pelo sol, símbolo do Brasil, e talvez seja graças a esse sol que as pessoas que conheci até agora me deram momentos de pura intensidade e alegria. O sol do Semiárido Brasileiro está me dando uma grande oportunidade, permitindo-me chegar aqui e satisfazer meu insaciável instinto de descobrir, observar e me disponibilizar para organizações alinhadas com os meus valores.

Ao mesmo tempo, o povo inculpa o quente e lindo sol para estar lentamente dissolvendo a vida das pessoas, as tradições e as fontes de subsistência delas. As pessoas pensam que ele está matando a vegetação e os animais, além de estar forçando os jovens a se mudarem para as grandes cidades e a renunciar à cultura e às atividades que as famílias vem realizando com dificuldade, mas com orgulho por gerações. Mais o problema daqui é bem diferente. O semiárido brasileiro não precisa de água, ele tem sede de mudança, de políticas públicas, os pequenos produtores querem aliviar as queimadas que se formaram no último século devido à políticas de prevenção inadequadas que apoiam as grandes empresas, e não as categorias mais vulneráveis.

E estou aqui, tentando do meu jeito e com humildade, contribuir para a mudança que todos esperam com impaciência, à espera de uma chuva de aprovação, de direitos e posições assumidas pelas instituições políticas, além da sociedade civil.

E entre um café e outro, interagimos observando os vaqueiros irem para casa com o gado, as mulheres costurando as redes de pesca, as crianças acompanhando os pais para pescar, com a esperança de que seja um dia de pescaria boa.

Em tudo isso somos acompanhados pelo forró de Luiz Gonzaga cantando assim:

[…]Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão. […]

Por: Angelica Tomassini