Pescadores e Pescadoras artesanais encontram o Procurador do Ministério Público em Brasília

Após anos de caminhada, pescadoras e pescadores acompanhados pelo projeto da Cáritas de Crateús, junto a CISV e ao CPP com o apoio financeiro da União Europeia, participaram de audiência pública no MPF em Brasília. Estavam entre outros pescadores e pescadoras artesanais de 12 estados do Brasil, para discutir as violações socioambientais em comunidades tradicionais pesqueiras com a Procuradoria Geral da República do MPF. O procurador Felício Pontes abriu a sessão dizendo que o órgão está para ouvir as demandas e reivindicações dos pescadores e das pescadoras por entender a gravidade das violações sofridas pelos profissionais da pesca e seus territórios.

A primeira apresentação foi trazida pelo pescador Antônio Jorge, de Maragojipe BA, relatou sobre o problema do Registro Geral de Pescador (RGP) que desde 2012 está suspenso, causando uma série de dificuldades para adquirir ou atualizar o documento. Jorginho, como é mais conhecido, denunciou os procedimentos que usam a tecnologia e que inviabilizam para o pescador a retirada do RGP. 

Como ele, pescadores e pescadoras dos outros estados relataram essa questão como uma das principais. Anailda, do Maranhão, reforçou que as notificações de suspensão dos RGPs serão mensais, inviabilizando o processo. Ela perguntou o MPF, nessa situação quando os pescadores e as pescadoras voltarão a ser reconhecidos/as?   


Ormezita Barbosa

Nesse sentido Ormezita Barbosa, Secretária Nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores, percebe que as violações “fazem parte de uma estratégia de vulnerabilizar para enfraquecer pescadores e pescadoras” e por isso ela pediu que o MPF acompanhe a regulamentação do projeto de lei que foi entregue na Câmara dos Deputados pelo MPP em audiência pública, no dia 21 de Novembro.

A plenária de violações dos direitos dos pescadores e pescadoras artesanais teve, num primeiro momento, os depoimentos de representantes de todos os estados presentes. Ao ouvir todas as denúncias, o Procurador Geral da República, Felício Pontes, disse que “a radiografia do Brasil trazida para o MPF mostra que teremos muito mais trabalho do que pensávamos”. Ele reafirmou o compromisso com a pesca artesanal, sugerindo uma divisão das demandas a serem encaminhadas.

O procurador

“Uma nacional, que são os problemas relacionados com RGP e o Projeto de Lei que já está em tramitação no Congresso Nacional receba uma Norma Técnica com impressões do MPF para que os deputados a apreciem com uma questão de justiça. E outra com as especificidades dos estados, onde o MPP deve encaminhar aos procuradores federais nas regiões para que abram processos e ouçam os pescadores”, disse o procurador.

Na segunda parte da audiência, pescadores e pescadoras dos vários estados presentes se pronunciaram sobre o derramamento do petróleo nas praias do litoral nordestino. Histórias de vidas afetadas por esse desastre que preocupa só os povos tradicionais que vivem da pesca. Muitas falas relataram a indiferença dos poderes públicos que estão ignorando a questão, deixando pescadores e pescadoras sem seguro defeso (pago aos pescadores no período de reprodução de determinadas espécies de pescado), sem dinheiro por conta da queda das vendas que está prejudicando a sobrevivência. As falas trouxeram o testemunho dos voluntários e voluntárias que passaram mal limpando as praias no silêncio das órgãos públicos e do comércio que só se preocupam com o destino do turismo.

“A primeira imagem que chegou na minha cabeça com a notícia desse crime ambiental foram as mulheres que são as mais afetadas, também porque a pesca é tudo o que sabem fazer” falou Martilene Rodrigues de Lima, coordenadora do Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP).

Os meses passam, a venda do pescado está prejudicada, a sustentabilidade alimentar está em risco em um clima de pouca clareza, no qual ainda não foram identificados os responsáveis e não foi implementada nenhuma medida para amenizar a vida desses povos tradicionais.

Pescadores e Pescadoras fizeram um apelo muito comovedor ao MPF para que faça pressão junto aos poderes legislativo e executivo para que solucione esse problema dos povos do mar, pois estão vivenciando uma calamidade sem precedentes.

Texto: Lorenza Strano, assessora de comunicação Cáritas de Crateús

Informações: Ligia Apel, assessora de comunicação do CPP

Fotos: Andressa Zumpano

Semiárido Show 2019 recebe Projeto Paulo Freire

O Semiárido show 2019 que aconteceu em Petrolina do 19 ao 22 de Novembro, recebeu a delegação cearense do Projeto Paulo Freire que contou com a participação de representações de entidades de assessoria técnica, agricultoras familiares, UGP – Unidade de Gerenciamento do Projeto Paulo Freire, e outros parceiros.
A Cáritas Diocesana de Crateús, foi representada pelas agricultoras Antônia Alexsania, mais com conhecida como Sônia, da comunidade de Barreiros/Tauá, que também representou o grupo de mulheres de Barreiros “Maria Cândida”, e Luzia Lima, da comunidade de Inácio José/ Quiterianópolis. Estava presente também Daniela Cavalcante, técnica pela Cáritas.
A missão do projeto Paulo Freire neste evento foi a promoção da troca de conhecimento, geração e construção de novos olhares para o semiárido.
A agricultora Sônia levou para comercializar no espaço ” Vila da economia solidária” um pouco do sabor da luta e empoderamento do grupo de mulheres. Com guloseimas traduzidas em doces, sequilhos, cocadas de jerimum e biscoitos, foi possível, além da venda, divulgar o trabalho dessas mulheres e de muitas outras que se reconhecem nessa experiência.
Foi distribuída a revista o Cirandeiro, produção da Cáritas Diocesana de Crateús, que conta um pouco da história do grupo de mulheres e outras 4 experiências no território dos Inhamuns, partilhadas a partir do trabalho do projeto Paulo Freire e da Cáritas.

” Estou me sentindo grata pela oportunidade da valorização do nosso trabalho, de divulgar os produtos do grupo de mulheres de barreiros e a força da mulher. Tenho uma boa expectativa nas vendas e nos conhecimentos que estou adquirindo” relata Sônia.

Luzia conta que com o convite se sentiu privilegiada. ” Quando me chamaram para participar desse evento me senti feliz e privilegiada em poder representar minha comunidade e o grupo de mulheres – Mulheres de Diferentes Artes. Sou beneficiária do projeto e o evento está me oportunizando adquirir mais conhecimentos. Já participei de oficinas nos espaços no evento e que com certeza levarei o que aprendi para a construção de saberes junto com as famílias da comunidade de Inácio José”, declarou.

Para Daniela Cavalcante, ações como essa, de promoção de atividades que valorizem a participação da mulher rural, da comercialização e da construção de conhecimentos, oportuniza um divisor de águas nos trabalhos de assessoria técnica, onde o que se discute em comunidade é evidenciado com a participação dessas mulheres nesses espaços, e que vem sendo uma realidade constante.

O semiarido show é um grande evento de inovação tecnológica voltada para agropecuária no Nordeste brasileiro. A feira leva a milhares de produtores, técnicos e empreendedores um amplo leque de alternativas viáveis para melhorar a produtividade e a sustentabilidade da atividade na região.

O projeto Paulo Freire tem financiamento do Governo do Estado do Ceará e do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (FIDA). A iniciativa tem por objetivo contribuir para a redução da pobreza rural em 31 municípios cearenses por meio do desenvolvimento do capital humano e social e do desenvolvimento produtivo sustentável pautado na geração de renda, no âmbito agrícola e não agrícola, com foco principal em jovens e mulheres. O Projeto atende os municípios de Arneiroz, Aiuaba, Parambu, Tauá e Quiterianópolis, no território dos Inhamuns.

Fotos e texto: Daniela Cavalcante, técnica do Projeto Paulo Freire pela Cáritas de Crateús

Pescadores e Pescadoras artesanais refletem sobre análise de conjuntura

Frente ao desastre do petróleo no litoral do nordeste e outras regiões que já estão contaminadas, a difícil conjuntura atual que afeta a classe trabalhadora e a categoria da pesca, após da audiência pública na Câmara dos Deputados, militantes do MPP se reuniram para uma análise do momento que o Brasil está vivendo.

“A pesar da falta de dados recentes, as estadísticas oficiais refletem só o 35% da realidade, sabemos que existem um milhão de pescadores e pescadoras no nosso pais, são trabalhadores e trabalhadoras que tem uma relação muito forte com a natureza, com o território, com a tradição e são responsáveis pela movimentação econômica de vários municípios –  argumentou o professor Cristiano Ramalho do Pernambuco – depois do derramamento do óleo estão sofrendo uma grave crise, a queda da venda do pescado é no mínimo do 80%”.

As consequências e os impactos desse crime ambiental, segundo o professor, são terríveis para os homens mas devastadores para as mulheres, porque a maioria dos produtos capturados por elas, como os mariscos, absorvem mais o óleo. E com as pescadoras sofrem também as comunidades inteiras, porque a pesca não é só uma atividade econômica, ela é uma forma de ser, de viver e se o território é condenado a sofrer, a atividade da pesca artesanal é prejudicada e consequentemente a identidade, a autonomia e a soberania dos povos das águas.

“A garantia da segurança alimentar está sendo atacada pelos grandes empresários e os comerciantes que estão difundindo a ideia que os produtos da pesca artesanal estão contaminados, seguindo o plano perverso de suspender a pesca e bloquear a continuidade histórica das comunidades pesqueiras” afirmou o Professor da Universidade Federal.

Na mesma linha de alarme e grito, o militante do MST, Alexandre Conceição, que expressou a solidariedade do povo da terra o qual, segundo ele, é complementário ao mundo da água e que nesse momento quer fortalecer a parceria e a união para limitar os avanços do capitalismo.

“Fazer análise de conjuntura é como fazer uma rede de pesca, vamos colocar um pedaço após o outro, e assim vamos entender que o que acontece está dentro da crise da América Latina onde o povo está lutando para resistir e subverter a ordem dada pelo capital”, declarou o militante.

A reflexão do Alexandre trouxe vários elementos que caracterizam o governo Bolsonaro e que estão preocupando sobre tudo pela desproteção do meio ambiente, cujo cuidado é fundamental para quem trabalha com água e terra. O exemplo da reforma da previdência, a nova medida verde-amarelo que vai entregar milhões de reais para os empresários tirando-os do seguro desemprego, a venda do território dos povos tradicionais para investidores estrangeiros.

E ainda foram colocados os três acidentes ambientais, os mais desastrosos dos últimos anos, Brumadinho, as queimadas na Amazonas e o derramamento de óleo no litoral como episódios que marcam um caminho perigoso que leva as mudanças climáticas e a destruição das tradições a favor dos grandes projetos e das grandes empresas.

Segundo a coordenadora nacional do MPP, Josana Pinto, que também compõe a mesa de analise, esses projetos são projetos de morte, como a mineração e a construção das barragens e tem como único objetivo de expulsar pescadores e pescadoras dos territórios ancestrais, prejudicando a sustentabilidade, a sobrevivência, a tradição.

“É hora da gente se mobilizar contra tudo isso, estamos em luta mas precisamos fazer mais, não podemos deixar espaço ao conformismo, estamos perdendo território, é momento de libertação e de sonhar juntos um sonho coletivo, de massa, de toda a sociedade” concluiu Josana.

Após da análise de conjuntura vários representantes dos estados presentes fizeram o uso da fala trazendo historias e vivencias até do interior do Ceará. “Tem um povo que ficou muito invisível, o mais invisível de todos e que sofre muito também a causa das mineradoras, é o povo dos açudes do sertão, eles e elas também estão aqui presente na luta para se somar a vocês e com a união superar esse momentos difícil” afirmou Marciel Melo, da Cáritas Diocesana de Crateús que desenvolve um projeto de resgate da comunidade pesqueira dos açudes junto ao CPP no semiárido brasileiro.

Textos e fotos: Lorenza Strano, assessora de comunicação Cáritas de Crateús

Pescadores e pescadoras artesanais entregam 200 mil assinaturas em defesa dos territórios pesqueiros

O Projeto de Lei de Iniciativa Popular que regulamenta e protege os territórios pesqueiros foi entregue na Audiência Pública junto com assinaturas.

Como primeira atividade do Grito da Pesca 2019, o Movimento Nacional dos Pescadores e Pescadoras Artesanais (MPP) realizou Audiência Pública na Comissão de Legislação Participativa (CLP) do Congresso Nacional, na manhã de hoje, dia 21. O objetivo foi entregar as 200 mil assinaturas em apoio ao Projeto de Lei de Iniciativa Popular, que regulamenta os Territórios Pesqueiros no Brasil. Mais de 250 pescadores e pescadoras artesanais de todo o país vieram até Brasília trazendo as assinaturas, bem como uma lista de denúncias sobre as mais diferentes ameaças e ataques aos seus territórios e sua vida.

A mesa de debates da Audiência foi presidida pelo deputado Joseildo Ramos (PT – BA) e composta pelos parlamentares Elder Salomão (PT ES), Edmilson Rodrigues (Psol PA) e o Senador Jacques Wagner (PT BA), que aceitaram o debate com os pescadores e pescadoras. Como convidados, a mesa contou com o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Cristiano Ramalho, o pescador Josemar Durães, de Minas Gerais, Dom Leonardo Steiner, bispo auxiliar de Brasília, representando a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e a pescadora Maria Eliene Pereira do Vale, do Ceará, representando a Articulação Nacional das Pescadoras Artesanais (ANP).

O Grito da Pesca acontece desde 2004, sempre no dia 21 de novembro, data em que é comemorado o Dia Mundial da Pesca Artesanal com mobilizações e reflexões nacionais em favor dos povos das águas e dos ecossistemas que compõe os territórios pesqueiros. A data faz referência à Revolta da Chibata, acontecida no Rio de Janeiro, em 1910, quando marinheiros afro-brasileiros, que originalmente eram pescadores, fizeram um motim contra as chibatadas que recebiam dos oficiais brancos da Marinha. Hoje, passados mais de cem anos, pescadores e pescadoras continuam sendo desrespeitados, como contextualiza a abertura da seção: “As chibatadas, hoje, aparecem em forma de suspensão de benefícios, de direitos trabalhistas e sociais, da negação da identidade da pescadora e do pescador artesanal, e o ataque às demandas desses profissionais”, exemplificadas pelos danos socioambientais do óleo nas praias do nordeste e as queimadas da Amazônia.Os deputados Elder Salomão e Edmilson Rodrigues, em suas intervenções, apresentaram indignação pelo descaso e desmontes das políticas públicas de proteção aos pescadores artesanais e comprometeram-se com a luta e as reivindicações do movimento. Refletem sobre os crimes socioambientais que assolam as comunidades pesqueiras e falam dos casos de Mariana, Brumadinho e o litoral do nordeste. Salomão evidencia principalmente, os problemas de saúde decorrentes desses crimes e diz que “são problemas extremamente sérios. A lama tóxica deixada pela Samarco e Vale afeta diretamente os pescadores. Da mesma forma, o óleo afetará a saúde das populações litorâneas. Por isso, o Estado não pode ficar alheio”, disse o parlamentar reafirmando seu compromisso com a apresentação do projeto de lei e sua aprovação.

O pescador de Minas Gerais, Josemar Durães (58), que pesca “desde menino”. Afirmou que os crimes são consequências da falta de políticas e pelo descaso do governo aos ambientes, seus ecossistemas e, menos ainda, às populações que deles sobrevivem. “Esses crimes junto com a instalação de grandes empreendimentos em nossos territórios e com os desmontes de políticas públicas a que temos direito são a prova de que o estado brasileiro não considera seu povo e governa apenas para alguns poucos”, disse o pescador, explicando a diferença que existe entre os objetivos dos grandes projetos de desenvolvimento e os valores de vida que as comunidades pesqueiras têm: “para nós, diferente do que querem os grandes empresários, o mais importante é simplesmente viver. Para nós, mais importante que dinheiro é a garantia de sobrevivência e a continuidade dos modos de vida tradicionais nas nossas comunidades”.

Dom Leonardo Steiner também enaltece o compromisso assumido pelos deputados, falando da importância que tem a regulamentação dos territórios pesqueiros:

“como Josemar disse, é uma questão de vida, um direito à existência desses
povos”, disse o bispo, parabenizando a iniciativa do MPP de coletar as assinaturas, escrever o Projeto de Lei e trazer para os deputados. Mas, convoca os pescadores e as pescadoras a continuarem com as ações: “essa iniciativa é fundamental para a lei que vai proteger os territórios, mas vocês precisam continuar. Sugiro que visitem particularmente cada um dos deputados e apresentem o projeto para eles e para as igrejas e todas as organizações da sociedade. A união de todos é fundamental. E o mais importante: mantenham-se unidos”, disse.

Representando as pescadoras através da Articulação Nacional das Mulheres Pescadoras (ANP), Maria Eliene Pereira do Vale disse que as mulheres estão mais vulneráveis aos problemas de saúde ocasionados pela atividade da pesca e, mais ainda, com as consequências dos crimes socioambientais que tem ocorrido nos territórios pesqueiros. Alertou para a invisibilidade que o Estado as mantém, ao não reconhecê-las como profissionais. Lembrou o Decreto 8.425/2015 que estabeleceu novas regras para a inscrição no Registro Geral da Atividade Pesqueira (RGP), excluindo vários pescadores artesanais que não trabalham diretamente com a captura do pescado, inclusive as mulheres: “Nós mulheres Pescadoras não somos invisíveis como o governo pensa. Existimos e vamos lutar por nossos direitos”, disse, afirmando que a saúde das pescadoras deve ter política pública específica e prioritária. “Precisamos de atenção a saúde específica e diferenciada, pois nosso trabalho é específico e diferente de outras profissões. Também temos problemas por movimentos repetitivos”. A pescadora continua reforçando o valor da pescadora: “Temos orgulho de ser pescadora, pois temos os conhecimentos da natureza, dos berçários naturais e de todo o território onde vivemos. Nós mulheres buscaremos em todo lugar nossos direitos, pois não temos medo de ser mulher”

Finalizando as exposições da Mesa, o professor Cristiano Ramalho, da UFPE, falou da campanha, enaltecendo os processos construídos pelos pescadores e pescadoras artesanais de união e de organização, durante os anos que se dedicaram à coleta de assinaturas: “se houve ganho nesse processo foi o fortalecimento da cidadania dos pescadores e pescadoras e sua organização”, disse, comentando a importância do território: “é impossível separar a vida das pessoas que ali moram com os ecossistemas e ambientes naturais, pois as formas de vida estão intrinsecamente ligadas, em uma verdadeira simbiose de existência”, explicou o professor. Disse que dessa conexão, esses trabalhadores fornecem produtos em qualidade e quantidade para a população brasileira. Porém, afirma que o Estado não tem dado o devido reconhecimento a elas: “Essa população tem ofertado muita coisa para a população brasileira, e o Estado não as tem defendido. No entanto, o Estado têm uma dívida histórica com essas pessoas”.

Na sequencia, os participantes puderam se manifestar e, vários depoimentos exaltaram a importância de uma lei que os proteja. Josana Pinto, pescadora do Pará, relacionou a degradação ambiental com a vida dos povos das águas: “cada árvore cortada é como se um pedaço do nosso corpo tivesse sendo cortado. Quando rios são contaminados, como esse óleo que tá nas praias do nordeste ou os crimes de Mariana e Brumadinho, é como nosso sangue que escapa dos nossos corpos. Mas, vamos lutar até o fim pelas nossas vidas”. Força e resistência compartilhada por Ormezita Barbosa, Secretária Nacional do Conselho Pastoral de Pescadores, que diz com firmeza: “Estamos sendo trucidados por esse governo maldito que desconsidera nossas vidas. Estamos sendo sacrificados com esse derramamento de óleo. Precisamos ter visibilidade, pois não somos invisíveis. Existimos”. Afirmou a secretária, pedindo verdadeiro compromisso dos parlamentares:  “precisamos de duas mãos. Fizemos nossa parte formulando o Projeto de Lei e colhendo as assinaturas. Agora, os deputados precisam viabilizar os trâmites e a aprovação da lei”, e reafirmou: “nossa ousadia e nossa coragem nos fortalecem e garantem que não vamos ser derrotados”.

Representando as novas gerações de pescadores e pescadoras artesanais, Edielson Barbosa dos Santos, pescador de Maragojipe, Bahia, fala em nome da juventude pesqueira e diz que “o golpe não foi dado à democracia com a retirada da ex-presidenta Dilma, mas são os grandes empreendimentos que se instalam em nossos territórios e o Estado que permite a instalação deles. Todos desconsideram nossas vidas. Mas, resistiremos”.

Por fim, pescadores e pescadoras artesanais entregaram as mais de 200 mil assinaturas de apoio ao Projeto de Lei. Josana apresentou os formulários por estado e disse que o objetivo do MPP e do CPP é a defesa incondicional dos territórios pesqueiros. “Nosso sonho sempre foi uma lei de proteção às nossas vidas. Fizemos nossa parte porque sabemos que um sonho que se sonha só é só sonho, mas vai ser uma realidade porque é um sonho de todos e todas. Defender o território é defender a vida”, disse. Voltando-se aos parlamentares, reivindicou: “realizem nosso sonho, deputados, pois é um sonho conjunto. E com vocês, dando continuidade aos trâmites que precisam ser feitos vamos conseguir. Jogando nossas redes em águas mais profundas, entregamos com agradecimentos as mais de 200 mil assinaturas”.

Texto: Ligia Apel, assessoria de comunicação do CPP.

Foto: Lorenza Strano, assessoria de comunicação Cáritas de Crateús

Entrega de equipamentos de pesca é ocasião para negociar com os poderes públicos

A pesca artesanal é feita por homens e mulheres que sempre pescaram no sertão, nos rios e desde algumas décadas nos açudes. Antigamente alguns pescavam com latinhas de alumínios ou outras ferramentas básicas, com a urgência de quem tem que sobreviver.  Hoje eles e elas pescam de tarrafa e galão, equipamentos confeccionados artesanalmente. O uso dessas redes de pesca como as canoas é fundamental para o exercício da profissão, por isso o projeto ‘Pescadores e Pescadoras artesanais construindo o bem viver” executado pela Cáritas de Crateús em parceria com a CISV e o CPP, co-financiado pela União Europeia, está beneficiando vários pescadores e pescadoras dos 12 municípios com canoas, linhas para confecções e outros materiais úteis para o beneficiamento do pescado e para a venda, como embaladoras, balanças, picadoras, faças. Os equipamentos de pesca foram entregue semana passada em Tamboril, Catunda, Ipaporanga, Nova Russas, Independência, Novo Oriente e Realejo. 

Entrega em Nova Russas

“Ganhar esse material é um presente importante, porque a gente não tem condições de comprar e precisa para desenvolver o nosso trabalho” afirmou Joelma Ferreira, pescadora de Independência na frente dos representantes dos sindicatos e do mundo da política que aceitaram o convite e que dialogaram com a categoria da pesca na ocasião da entrega que se transformou em uma verdadeira negociação. Durante a discussão a pescadora apontou algumas questões a se resolver no município como a DAP e um ponto de comercialização para o pescado. Os pedidos foram encaminhados e a situação promete bem. 

E dá muita esperança a situação de Novo Oriente também, onde para o momento da entrega dos materiais de pesca, foi organizada uma grande festa pela Colônia Z-58, com a ajuda da prefeitura que para a ocasião fez uma raspagem na estrada para garantir um acesso mais rápido e seguro ao açude. 

Durante o evento de entrega, pescadores e pescadoras disputaram com as novas canoas o primeiro torneio de canoagem, com a presença do deputado Carlos Felipe que falou da Cáritas como una ong que desenvolve ações de vida transformadoras que não é só redes e canoas mas é formação e conhecimento. “ Eu queria falar da nossa gratidão para os pescadores e as pescadoras, e anunciar que a prefeitura vai doar uma escola para fazer a sede de vocês” falou o prefeito de Novo Oriente, Vanaldo Moura.

Entrega em Novo Oriente

Também no município de Nova Russas, pescadores e pescadoras receberam materiais de pesca e ao mesmo tempo tiveram a ocasião de falar com a vereadora Socorrinha Holanda sobre a situação do bairro Piçarreira onde moram a maioria das pessoas ligadas a pesca. O encontro foi uma boa oportunidade para falar não só dos problemas do bairro no geral mas do anunciado fechamento da escola. 

Foi um dia de diálogo também na comunidade do Realejo, onde pescadores e pescadoras no dia da entrega tiveram a oportunidade de falar com o deputado Carlos Felipe, das preocupações do dia dia em relação a saúde. Ele foi visitar as casas de quem recebeu o sistema bioágua através do projeto e ficou muito alegre de poder conversar com o povo dos açudes. 

Entrega no Realejo

Pescadores e pescadoras  dos municípios acompanhados pelo projeto, transformaram o dia da entrega dos materiais em momentos para expressar necessidades e reivindicar direitos, debatendo com os poderes públicos, exercitando o poder da fala e mostrando o processo de empoderamento.  

Fotos e texto: Lorenza Strano, assessora de comunicação.