Balanço da situação das famílias atingidas por enchentes nas regiões dos Inhamuns e Crateús

Entrega de mantimentos no bairro Maratoan, em Crateús.

Diante do desafio de atender famílias desabrigadas após barragens encherem e rios transbordarem nas regiões dos Inhamuns e Crateús, onde a Cáritas Diocesana de Crateús tem presença mais forte, as e os agentes Cáritas se uniram a dezenas de voluntárias/os, secretarias municipais, Defesa Civil e lideranças paroquiais no esforço de mitigar os efeitos causados às comunidades. Com atuação mais forte em Crateús e em Quiterianópolis, a situação de Tauá e Novo Oriente também foram monitoradas, e passado o momento dos atendimentos mais urgentes, como remanejamento para abrigos, arrecadação e distribuição de donativos, levantamento de prejuízos, o momento é de reconstrução não apenas das vidas afetadas, mas também da luta pela cidade que merecemos e queremos.

Embora, felizmente, não se tenha registro de vítimas fatais, um dado preocupante é que os incidentes ocorrem num período de pandemia, em que as organizações de saúde recomendam quarentena. Então houve preocupação tanto com as pessoas dispostas a ajudar, como com as pessoas remanejadas para abrigos para que os protocolos de prevenção fossem adotados. “Estamos a serviço da vida. Apesar de toda Diocese de Crateús estar adotando as corretas orientações e medidas de isolamento social, é preciso que tenhamos a sensibilidade de saber a hora de abrir exceções. E entre elas está serviços essenciais para a vida. Se não fosse a nossa intervenção, as consequências seriam muito piores”, argumenta a irmã Francisca Erbenia Sousa coordenadora da Cáritas Diocesana de Crateús.

Segundo ela, o mesmo cuidado se observou entre as muitas pessoas que se mobilizaram para fazer doações. Primeiro para Quiterianópolis, e depois para Crateús, a Cáritas foi uma das principais referência na arrecadação, seja de material de higiene pessoal, seja de roupas, calçados, alimentos não perecíveis, água e dinheiro. “Apesar de tudo é nessas horas que observamos os sinais concretos de solidariedade. Inclusive, há muitos gestos de caridade de pessoas de outros municípios”, observa Adriano Leitão, agente Cáritas. Doações que, inclusive, continuam sendo aceitas, seja com material de higiene pessoal, água, alimentos não parecíveis ou ajuda financeira através da conta: Ag. 237-2, Conta Corrente 37219-6, da Cáritas Diocesana de Crateús, cujo CNPJ é 07354284/ 0001-63.

Parte da equipe planejando as ações de assistência em Crateús

SITUAÇÃO EM CRATEÚS

Na situação mais recente, ocorrida na madrugada do dia 25 de março, um volume de chuvas de 140 mm provocou a inundação de ruas, alagamento de casas, atingindo ao todo 219 famílias, 679 pessoas. Algumas foram transferidas para abrigos provisórios, como a Escola Municipal Francisca Machado, no bairro Fátima II, e outras duas escolas indígenas. Todas elas, porém, já foram atendidas, ou com mantimentos (roupas alimentos, água potável, etc.), ou com referido remanejamento provisório. Até segunda-feira os órgãos competentes divulgarão um relatório mais detalhados dos prejuízos do ponto de vista material e ambiental, da situação de famílias desalojadas e desabrigadas, além das ações que devem ser adotadas diante da atual conjuntura.

Parte da equipe fazendo triagem nas doações em Quiterianópolis

SITUAÇÃO EM QUITERIANÓPOLIS

Primeiro município que registrou rompimento de barragens e alagamentos na região, a situação se agravou em Quiterianópolis após as fortes chuvas que caíram nos dias 15 a 17 deste mês, num inverno já considerado ótimo nos meses anteriores. As localidades atingias foram São Francisco, São Miguel, Areias, Ponta I, Santa Rita, Saquinho, Croá, Beira do Rio Poty, Pombo, Pedra Preta e sede do município. Muitas delas ficaram sem energia elétrica. Foram 83 famílias desalojadas e 31 estão desabrigadas, fora o caso das comunidades Areias e Pedra Preta, onde até agora não se conseguiu chegar, devido as dificuldades de acesso. Além de várias casas com estrutura destruída ou comprometida, foram 42 açudes danificados, 17 poços profundos ou cacimbões soterrados, 30 estradas vicinais interrompidas, além de 32 passagens molhadas (espécies de pontes) totalmente destruídas. Nesta cidade, as e os agentes Cáritas colaboraram com arrecadação, triagem e distribuição de mantimentos.

SITUAÇÂO EM TAUÁ E NOVO ORIENTE

Em Tauá a comunidade Jardim e o bairro Alto Nelândia foram os mais afetados, com prejuízo em lavouras, destruição de cercas, e uma família desabrigada na sede do município. Já em Novo Oriente, 1.820 famílias foram de alguma forma atingidas nas comunidades Areias, São Francisco, Batista, Lagoa das Pedras, Lagoinha, Monte Alegre, Acampamento e Várzea dos Angicos. Quatro famílias ficaram desabrigadas, outras quatro desalojadas e três tiveram a estrutura da casa comprometida.

Cáritas participa de atendimento emergencial às vítimas da enchente em Crateús

Agentes Cáritas agindo sem esquecer a prevenção

Seguindo todos os protocolos de prevenção orientados pela Organização Mundial da Saúde e os especialistas em epidemiologia, nossas/os agentes da Cáritas Diocesana de Crateús saíram de forma extraordinária da necessária quarentena, e ajudaram a atender as famílias desabrigadas em decorrência da chuva de cerca de 140 mm que caiu na sede de Crateús, na madrugada desta quarta, 25. Até o presente momento, a Secretaria de Assistência Social de Crateús estima que foram aproximadamente 100 casas atingidas, provavelmente 500 pessoas, em várias áreas mais baixas da cidade. Pela manhã desta quinta, 26, os servidores da secretaria devem fazer o cadastro de todas elas, e então informar à população com mais precisão a quantidade de vítimas.

Com o apoio de agentes Cáritas, lideranças da Paróquia Senhor do Bonfim, da própria Secretaria de Assistência Social e o conjunto de secretarias municipais, Defesa Civil e uma legião de voluntárias/os, rapidamente socorros emergenciais, como abrigos provisórios e alimentação foram providenciados. Apenas as postagens na página do Facebook da Cáritas noticiando o ocorrido, anunciando o recebimento de ajuda de materiais e dinheiro alcançou, rapidamente, mais de 50 mil pessoas, além de mais de 700 compartilhamentos, o que gerou uma grande comoção e mobilização de solidariedade. Ainda hoje foi iniciado o trabalho de triagem e de distribuição de mantimentos doados.

Doações chegando em grande número à sede da Cáritas Diocesana de Crateús.

“É muito importante que as pessoas dispostas e com possibilidade de ajudar continuem nos enviando doações ou compartilhando nossas notícias e campanhas, para que não falte nada de necessário a essas pessoas”, explica Adriano Leitão, agente Cáritas. Segundo ele, o clamor das populações mais necessitadas é sempre prioridade para a entidade católica, e é possível prestar socorro e ao mesmo tempo tomar todas as providências necessárias para conter a pandemia do novo coronavírus, embora a recomendação é que, quem puder, não saia de suas casas. “Inclusive, uma de nossas preocupações é que as famílias atingidas tenham acesso mínimo a medidas sanitárias que coíbam ao máximo a proliferação do vírus entre elas. São pessoas que só não estão em casa por conta de um acidente, mas elas têm o direito à prevenção, e conseguirão com o grande mutirão que está se formando, acredita.

CÁRITAS E OS DESAFIOS DO MUNDO URBANO

Atuando há 15 anos numa nova etapa da existência na Diocese de Crateús, a entidade que surgiu na Alemanha, no século 19, justamente para atender a emergências como essa, hoje atua em rede global em diversas frentes  de assistência humanitária, sem perder o foco do atendimento a situações como esta. E desde que retomou sua caminhada na região de Crateús, no século 21, a Cáritas Diocesana de Crateús atua direta ou indiretamente em todas as situações de emergência social nas periferias urbanas do território, especialmente em terras crateuenses, em Tauá e Nova Russas, que possuem as maiores desafios da questão urbana na área diocesana.

Apesar de hoje ter presença em mais de 20 municípios de várias regiões de todo Ceará, atuando em áreas como agroecologia, convivência com o Semiárido, Educação Contextualizada, energias renováveis, e etc., a Cáritas de Crateús jamais deixou de ter uma forte presença frente a questões urbanas, e, ao lado das comunidades mais empobrecidas, luta para que, no futuro, incidentes como esse possam ser evitados ou minimizados, com saneamento básico, planejamento e execução de um Plano Diretor Urbano que atenda às vozes e os interesses destas populações. Para tal, através do projeto Tecendo Redes, realizado pela Cáritas Regional Ceará, em parceria com as cáritas diocesanas, incluindo a de Crateús, com apoio da Misereor, promove e continuará promovendo escolas de cidadania e mesas de negociação entre comunidades empoderadas e o poder público, na perspectiva da construção permanente e inclusiva da cidade que queremos e merecemos.

Nota de orientação da Diocese de Crateús sobre novo coronavírus

“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele.” (cf Lc10,33-34)

“Diante do complexo quadro gerado pela pandemia do coronavírus, a CNBB manifesta sua palavra de esperança e de solidariedade.” E a nossa Diocese de Crateús, em comunhão com a CNBB, considerando as orientações do Ministério da Saúde, Secretaria Estadual de Saúde e Secretarias de Saúde dos municípios do território da Diocese, bem como, o que dizem os cânones 1247(sobre a obrigação de participar da missa dominical) e 87 (que faculta ao Bispo Diocesano dispensar os fiéis das leis disciplinares universais e particulares), orienta que:

1. Suspendam os atos litúrgicos (Romarias, Procissões, Novenas, Via Sacra, Encontros de Formação e de Pastoral, Cursos) que haja possibilidade de aglomeração de pessoas.

2. As celebrações das Missas, Matrimônios e Batizados realizados nas Matrizes ou Capelas Grandes não devem ultrapassar o número de 100 pessoas. Nas Capelas menores, com pequenos grupos, caso não se desmarque as missas já agendadas, deve-se observar um número menor e, de preferência, celebrar ao ar livre. Nestas celebrações, sempre se distribua a Sagrada Comunhão numa única espécie e na mão.

3. Idosos e enfermos ficam desobrigados do compromisso cristão católico de participar das missas dominicais. Orientamos que fiquem em casa, rezem com seus familiares e fortaleçam a Igreja doméstica.

4. Os que vierem a participar das Celebrações e Orações mantenham uma distância prudente um do outro.

5. Nas celebrações, não se deem as mãos para a oração do Pai Nosso e não haja o abraço da paz.

6. Cada Paróquia e Área Pastoral encontre um horário de Missa Dominical e/ou semanal, diferente, do habitual, a fim de que se possa rezar nas intenções do povo (sétimo dia, doentes, cuidadores, entre outros) sem maiores aglomerações de fiéis;

7. Essas celebrações possam, na medida do possível, serem transmitidas pelos meios de comunicação: rádio, facebook, instagram, a fim de que os fiéis estejam em comunhão, em suas casas.

8. Se mantenha as Igrejas abertas para adoração e oração pessoal.

9. Suspendam os mutirões de confissão nas Paróquias e Áreas Pastorais. Os padres, no entanto, permaneçam disponíveis para acolher os que buscam o sacramento da Reconciliação, neste tempo quaresmal.

10. Os Ministros Extraordinários da Comunhão Eucarística evitem a visitação aos idosos e doentes em suas casas, neste tempo de pandemia;

11. Em relação à Catequese, suspendam-se os encontros e sigam-se as mesmas orientações dadas às escolas. As famílias intensifiquem, especialmente neste tempo, a oração e catequese no seu lar.

12. Evitar espalhar os fake news (notícias falsas) que criem confusão e pânico. Atentar para as fontes das informações que compartilhamos. Todas as orientações que seguem visam a proteção das pessoas, buscando evitar a contaminação e preservar a vida. “As mãos não podem se tocar, nem os braços abraçar, mas os joelhos podem se dobrar”, os corações se compadecer, a solidariedade nos fazer crescer na fraternidade e no cuidado com a vida. Fortaleçamos a convivência familiar, protegendo e zelando da vida que é dom de Deus. De acordo com realidade, daremos novas orientações. As presentes orientações passam a valer a partir da data de publicação desta nota.

RESAB REALIZA PLANEJAMENTO ANUAL

Na manhã de ontem, 04, a Rede de Educação do Semiárido Brasileiro (RESAB) da região dos Inhamuns e Crateús realizou planejamento anual, além de definir a equipe de secretaria executiva provisória, que vai animar os processos do coletivo até a assembleia, que está agendada para o dia 06/05. Participaram representantes de secretarias municipais de educação do território, da Faculdade de Educação (FAEC) da Universidade Estadual do Ceará – Campus Crateús, e da sociedade civil.

Cinco pessoas foram eleitas para compor a secretaria provisória da RESAB regional: Paulo Cesar de Oliveira, da Cáritas Diocesana de Crateús, Fábio Gomes Siridó, da Secretaria Municipal de Educação de Novo Oriente, Thais Cristine da FAEC, Mardones Servulo, do Instituto Bem Viver e Luzanira Martins de Sena, da Secretaria Municipal de Educação de Tamboril. Entre as tarefas da equipe estão preparar a assembleia, e ser a referência da rede para acompanhar os processos envolvendo Educação Contextualizada nos municípios.

“Também pensamos sobre o Seminário de Educação Contextualizada, que será realizado durante a programação da Feira [da Agricultura Familiar e Economia Popular Solidária] que será realizada no início de junho. Acredito que demos um passo muito importante para construir um caminho para uma educação libertadora, não só em nossa região, mas em sintonia com os 20 municípios que a equipe pedagógica da Cáritas acompanha, através do projeto Contexto”, explicou Paulo Cesar.

Democracia: a partícula central da sociedade.

Todas as manhãs, na fronteira leste entre França e Suíça, dezenas de cientistas de variadas nacionalidades emprestam seus conhecimentos afim de manipular uma máquina de aproximadamente 27 km de extensão, estabelecida a 175 metros abaixo do nível do mar. Essa máquina é denominada de Acelerador de Partículas de Hádrons , cujo objetivo é fazer a matéria viajar em sentido oposto a uma velocidade estratosférica até chocarem-se. Espera-se que os efeitos desse impacto revelem as entranhas da matéria, para assim conhecê-la na sua mais profunda essência. A grande hipótese perseguida estimula a ideia de que as partículas já estejam ali há mais 13,7 bilhões de anos e, portanto, estariam na origem do universo.

O que isso tem a ver com a democracia? Estou convencido que a forma e o método empreendido na busca da essência da matéria têm algo a nos dizer sobre a busca pela a essência da democracia. Tal como aquelas partículas precisam colidir para mostrar suas entranhas, assim é a democracia, que não sendo matéria, precisa da nossa energia e movimento para ser chocada com a realidade, de tal forma que possa penetrar as entranhas da sociedade. Uma vez descoberta, talvez seja possível compreender sua formação para enfim modificá-la. Dito de outra forma: precisamos imprimir velocidade à democracia, fazê-la ir de encontro à realidade, para feito os cientistas que trabalham no acelerador de partículas, buscar a essência de nossa sociedade.

Enquanto não imprimimos movimento à democracia, ela gira em baixa rotação induzindo um processo adoecido. Nesse cenário, as disputas muitas vezes ilegítimas são eivadas de narrativas falsas quando não violentas. Os interessados na baixa rotação democrática agem para neutralizar a participação da grande sociedade e abrir espaço a manipulação de uma pequeníssima elite. Pequena no tamanho, porém com imensa capacidade de concentrar poder e riqueza. Essa elite, não só domina, mas manipula as leis jurídicas e econômica. Não tem escrúpulo ou vergonha de induzir a informação e centrar força na manipulação eleitoral.

Ao dominar a informação, a economia e as leis, a elite produz uma sociedade do atraso. Estabelece um movimento carcomido para manter o status-quo. Elege como inimiga as instituições que aderem a resistência histórica, como os sindicatos, e toma de assalto aquelas que deveriam regular a sociedade. Em relação ao Brasil, pensava-se que esse tipo de classe estava interessada em dominar os modelos tradicionais da economia como os fluxos industriais, comerciais e de serviços, mas, hoje sabe-se das suas aproximações aos milicianos, ao tráfico internacional de drogas e até de armas. Eles tramam nos porões palacianos e agem de forma a açodar outros poderes.    

Em baixa velocidade a democracia é facilmente sequestrada. Feito lama na água apodrece até regressar ao estado de exceção via força, ou vigilância e controle. A democracia em baixa rotação é, portanto, uma presa fácil, pois evita conflitos entre suas classes, não se choca com nada e não se revela. Dar-se pelo medo e engessada não evolui, tão pouco guarda a expectativa no futuro, porque o presente lhe serve enquanto camisa de força.

Nesse tipo de sociedade a democracia é reduzida a lógica eleitoral sem regras claras, e quando não está servindo a uma classe, é dela o caminho mais próximo rumo a acumulação da riqueza socialmente produzida. Por causa da baixa velocidade da democracia, não é possível aprofundar o ideário social da coletividade. Não é possível obter os ganhos da participação ou tão pouco conhecer os frutos da democracia participativa.

Em tal cenário, os sindicatos são fortemente atacados  Os movimentos sociais devem ser vistos como inimigos, e a classe trabalhadora é apinhada em seus direitos. Sem participação efetiva, a cidadania vira um mero instrumental burocrático reduzida a aquisição do CPF ou de algum tipo de endividamento bancário.

O primeiro desafio desse tipo de sociedade é olhar para a sua economia, pois é aí que ocorrem os primeiros movimentos de frenagem. Ao experimentar esse tipo de democracia é comum observar a classe trabalhadora comemorar o aumento na bolsa de valores como se fosse aumento no salário. A financeirização das relações socias é vista aqui como elemento de crescimento e avanço social. A vida a crédito, não questiona o super lucro dos bancos, mas se há uma pequena transferência de renda aos pobres, está se torna uma verdadeira ameaça a soberania e rapidamente se torna um estorvo. Os pequenos produtores já não encontram espaço no sistema, enquanto as reproduções mediáticas fazem crer que o tudo é “tec”; o tudo é “pop” o tudo é “tudo, tudo”. Manipulam a inteligência alheia fazendo de uma bricolagem de palavras a verdade.

Qual o desafio da sociedade quando se encontra com esse tipo de democracia? O desafio consiste em aumentar a velocidade e intensidade do espaço democrático, via participação social. A democracia estar a ganhar velocidade ou a ficar estacionada à espera do próximo pleito? Recorro a Coutinho para quem a democracia enquanto valor universal é o socialismo sem fim. Ao dizer isso, o autor induz que a democracia é antes de tudo um processo em constante movimento a considerar erros e acertos em busca de formas e métodos, quase sempre questionáveis, mas nunca paralisada.

Como imprimir velocidade a democracia ao ponto de fazê-la colidir com a realidade? A bem da verdade é que não nos faltam conteúdos, mas ainda há ausência de organização social. Por isso, temos a res-ponsabilidade , ou seja, uma resposta a possibilidade de enfrentar o desafio da democracia como movimento. Dá sentido e ritmo para além das eleições. Nasce aí o papel de ocupar os sindicatos, os movimentos sociais e os conselhos. E as eleições é claro! Não podemos deixar que nenhum desses instrumentos fiquem desocupados. É preciso ocupar os partidos políticos, escolher e se envolver, ir até às últimas consequências como ser candidato, mesmo sabendo da impossibilidade do sucesso. Aliás, sucesso aqui é a disputa do espaço público. Tencioná-lo até estabelecer outras tessituras. Dar velocidade à democracia é não confundir neutralidade com isenção. Não há neutralidade na política e o espaço vazio será rapidamente ocupado pela rapinagem política. Isento, podemos ser. Porque isento é aquele que não topa fazer o jogo sujo, a política da mesquinharia, da manipulação.

Para finaliza, recordo a ideia de revolução passiva de Gramsci para atestar a capacidade de intervenção social. Para o italiano, o movimento entre a posição social e hegemonia possibilita uma leitura correta da história e aí sim, provocar ações transformadoras. É preciso com urgência pôr em funcionamento o Acelerador de Partículas da Democracia. Este não pode figurar no centro da Europa, mas nas periferias onde a democracia sofre com uma súbita desaceleração. Dessa forma, é possível estabelecer alta velocidade à democracia, assim, fazê-la colidir com a realidade. Isso exige muita organização social, muito trabalho militante e participação coletiva. Nesse limite, a colisão com a elite do atraso será inevitável revelando as entranhas de nossa democracia. Quem sabe aí não a conhecemos mais, para desta forma, feito os cientistas encontramos a nossa essência. 

Rafael dos Santos da Silva
Professor Universidade Federal do Ceará – UFC
Doutorando em Sociologia – UC Membro do Observatório das Politicas Publicas