Democracia: a partícula central da sociedade.

Todas as manhãs, na fronteira leste entre França e Suíça, dezenas de cientistas de variadas nacionalidades emprestam seus conhecimentos afim de manipular uma máquina de aproximadamente 27 km de extensão, estabelecida a 175 metros abaixo do nível do mar. Essa máquina é denominada de Acelerador de Partículas de Hádrons , cujo objetivo é fazer a matéria viajar em sentido oposto a uma velocidade estratosférica até chocarem-se. Espera-se que os efeitos desse impacto revelem as entranhas da matéria, para assim conhecê-la na sua mais profunda essência. A grande hipótese perseguida estimula a ideia de que as partículas já estejam ali há mais 13,7 bilhões de anos e, portanto, estariam na origem do universo.

O que isso tem a ver com a democracia? Estou convencido que a forma e o método empreendido na busca da essência da matéria têm algo a nos dizer sobre a busca pela a essência da democracia. Tal como aquelas partículas precisam colidir para mostrar suas entranhas, assim é a democracia, que não sendo matéria, precisa da nossa energia e movimento para ser chocada com a realidade, de tal forma que possa penetrar as entranhas da sociedade. Uma vez descoberta, talvez seja possível compreender sua formação para enfim modificá-la. Dito de outra forma: precisamos imprimir velocidade à democracia, fazê-la ir de encontro à realidade, para feito os cientistas que trabalham no acelerador de partículas, buscar a essência de nossa sociedade.

Enquanto não imprimimos movimento à democracia, ela gira em baixa rotação induzindo um processo adoecido. Nesse cenário, as disputas muitas vezes ilegítimas são eivadas de narrativas falsas quando não violentas. Os interessados na baixa rotação democrática agem para neutralizar a participação da grande sociedade e abrir espaço a manipulação de uma pequeníssima elite. Pequena no tamanho, porém com imensa capacidade de concentrar poder e riqueza. Essa elite, não só domina, mas manipula as leis jurídicas e econômica. Não tem escrúpulo ou vergonha de induzir a informação e centrar força na manipulação eleitoral.

Ao dominar a informação, a economia e as leis, a elite produz uma sociedade do atraso. Estabelece um movimento carcomido para manter o status-quo. Elege como inimiga as instituições que aderem a resistência histórica, como os sindicatos, e toma de assalto aquelas que deveriam regular a sociedade. Em relação ao Brasil, pensava-se que esse tipo de classe estava interessada em dominar os modelos tradicionais da economia como os fluxos industriais, comerciais e de serviços, mas, hoje sabe-se das suas aproximações aos milicianos, ao tráfico internacional de drogas e até de armas. Eles tramam nos porões palacianos e agem de forma a açodar outros poderes.    

Em baixa velocidade a democracia é facilmente sequestrada. Feito lama na água apodrece até regressar ao estado de exceção via força, ou vigilância e controle. A democracia em baixa rotação é, portanto, uma presa fácil, pois evita conflitos entre suas classes, não se choca com nada e não se revela. Dar-se pelo medo e engessada não evolui, tão pouco guarda a expectativa no futuro, porque o presente lhe serve enquanto camisa de força.

Nesse tipo de sociedade a democracia é reduzida a lógica eleitoral sem regras claras, e quando não está servindo a uma classe, é dela o caminho mais próximo rumo a acumulação da riqueza socialmente produzida. Por causa da baixa velocidade da democracia, não é possível aprofundar o ideário social da coletividade. Não é possível obter os ganhos da participação ou tão pouco conhecer os frutos da democracia participativa.

Em tal cenário, os sindicatos são fortemente atacados  Os movimentos sociais devem ser vistos como inimigos, e a classe trabalhadora é apinhada em seus direitos. Sem participação efetiva, a cidadania vira um mero instrumental burocrático reduzida a aquisição do CPF ou de algum tipo de endividamento bancário.

O primeiro desafio desse tipo de sociedade é olhar para a sua economia, pois é aí que ocorrem os primeiros movimentos de frenagem. Ao experimentar esse tipo de democracia é comum observar a classe trabalhadora comemorar o aumento na bolsa de valores como se fosse aumento no salário. A financeirização das relações socias é vista aqui como elemento de crescimento e avanço social. A vida a crédito, não questiona o super lucro dos bancos, mas se há uma pequena transferência de renda aos pobres, está se torna uma verdadeira ameaça a soberania e rapidamente se torna um estorvo. Os pequenos produtores já não encontram espaço no sistema, enquanto as reproduções mediáticas fazem crer que o tudo é “tec”; o tudo é “pop” o tudo é “tudo, tudo”. Manipulam a inteligência alheia fazendo de uma bricolagem de palavras a verdade.

Qual o desafio da sociedade quando se encontra com esse tipo de democracia? O desafio consiste em aumentar a velocidade e intensidade do espaço democrático, via participação social. A democracia estar a ganhar velocidade ou a ficar estacionada à espera do próximo pleito? Recorro a Coutinho para quem a democracia enquanto valor universal é o socialismo sem fim. Ao dizer isso, o autor induz que a democracia é antes de tudo um processo em constante movimento a considerar erros e acertos em busca de formas e métodos, quase sempre questionáveis, mas nunca paralisada.

Como imprimir velocidade a democracia ao ponto de fazê-la colidir com a realidade? A bem da verdade é que não nos faltam conteúdos, mas ainda há ausência de organização social. Por isso, temos a res-ponsabilidade , ou seja, uma resposta a possibilidade de enfrentar o desafio da democracia como movimento. Dá sentido e ritmo para além das eleições. Nasce aí o papel de ocupar os sindicatos, os movimentos sociais e os conselhos. E as eleições é claro! Não podemos deixar que nenhum desses instrumentos fiquem desocupados. É preciso ocupar os partidos políticos, escolher e se envolver, ir até às últimas consequências como ser candidato, mesmo sabendo da impossibilidade do sucesso. Aliás, sucesso aqui é a disputa do espaço público. Tencioná-lo até estabelecer outras tessituras. Dar velocidade à democracia é não confundir neutralidade com isenção. Não há neutralidade na política e o espaço vazio será rapidamente ocupado pela rapinagem política. Isento, podemos ser. Porque isento é aquele que não topa fazer o jogo sujo, a política da mesquinharia, da manipulação.

Para finaliza, recordo a ideia de revolução passiva de Gramsci para atestar a capacidade de intervenção social. Para o italiano, o movimento entre a posição social e hegemonia possibilita uma leitura correta da história e aí sim, provocar ações transformadoras. É preciso com urgência pôr em funcionamento o Acelerador de Partículas da Democracia. Este não pode figurar no centro da Europa, mas nas periferias onde a democracia sofre com uma súbita desaceleração. Dessa forma, é possível estabelecer alta velocidade à democracia, assim, fazê-la colidir com a realidade. Isso exige muita organização social, muito trabalho militante e participação coletiva. Nesse limite, a colisão com a elite do atraso será inevitável revelando as entranhas de nossa democracia. Quem sabe aí não a conhecemos mais, para desta forma, feito os cientistas encontramos a nossa essência. 

Rafael dos Santos da Silva
Professor Universidade Federal do Ceará – UFC
Doutorando em Sociologia – UC Membro do Observatório das Politicas Publicas

O Dia Nacional da Juventude em Crateús

“Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” com essa frase se abriu o dia da Juventude em Crateús, um momento de fé, esperança e construção que contou com a presença de 300 jovens dos municípios de Crateús, Parambu, Quiterianópolis, Tauá, Ipueiras e Ararendá, reunidos na sede da escola Regina Pacis com o apoio da Cáritas de Crateús, a paróquia Senhor do Bonfim e a diocese.

“Tem um autor que diz uma coisa provocante que a juventude não existe, mas existem os jovens, com rostos concretos, então temos que falar de juventude indígena,  negra, branca, zigana, moradora de rua, migrante” assim o bispo, Dom Ailton, deu início ao momento das oficinas. Cuidar da vida e agradecer por esse dono, olhando as várias dimensões da espiritualidade foi o lema das atividades.

Para Larissa Oliveira, jovem participante da oficina espiritualidade e autoestima, foi um dia de muita alegria por ter compartilhado com outros jovens um momento de união que fez ela refletir sobre o sentido da vida e a importância dos elogios. 

Além desse assunto, o dia foi dedicado a terapia comunitária, a espiritualidade e a família, a corporeidade e o perdão. 

“Espiritualidade é muito mais que igreja, muito mais que rezar, a gente acha que ler a palavra de deus seja suficiente mas é muito além, assim como o sentido da família que vai além dos pais e das mães Nós temos que agradecer mais, que viver nesse mundo difícil sabendo que tem muitas pessoas que nos apoiam e nos acolhem” afirmou Cícero Romão, da comunidade Umburana. 

Um dia muito rico em troca e partilha, no qual os jovens se reconhecem por aquilo que são, falando dos problemas concretos do dia dia, trazendo uma nova ideia de espiritualidade, mais complexa, que abrange a vida toda do ser humano, tomando em conta aspetos que quase sempre esquecemos, que são a relação com o próprio corpo, o viver em comunidade e a prática do perdão. Todos aspetos imprescindíveis para poder construir o bem viver desde uma perspectiva jovem. 

Por: Comunicação Cáritas

Fotos: Comunicação Cáritas

Angelica: a nova voluntária italiana conta a sua chegada na Cáritas

Depois de uma longa espera burocrática, o mês passado cheguei em Crateús, uma cidade da região geográfica chamada Semiárido Brasileiro, que se estende por todo o Nordeste e parte de Minas Gerais, e que está sofrendo a pior seca dos últimos cem anos. Estou aqui porque durante oito meses estarei a serviço da Cáritas Diocesana de Crateús.

A viagem de ônibus de Fortaleza até minha futura cidade está repleta de estrelas, e olhando para a escuridão eu imagino o que verei no dia seguinte, quando o sol nascer. Admito que estou emocionada e ansiosa para chegar, mas ao mesmo tempo um pouco assustada. Eu me pergunto acima de tudo, como serão meus futuros colegas? Conseguirei entender o português e me fazer entender? Eu vou estar à altura das tarefas que eles vão me dar? Encontrarei pessoas que me estimulem com novas ideias e diferentes costumes? Todas as primeiras inseguranças desaparecem ao ver o rosto sorridente e simpático que me saúda na rodoviária. É Lilì, uma agente Cáritas, que com um forte abraço e uma boa conversa consegue me deixar à vontade num piscar de olhos.

Meu Servizio Civile é dedicado ao projeto Pescadoras e Pescadores artesanais construindo o bem-viver, nascido da colaboração entre a Cáritas de Crateús, o CISV e o Conselho Pastoral dos Pescadores e com a ajuda financeira da União Europeia e da Conferenza Episcopale Italiana. Crateús não tem o mar, os beneficiários do projeto são pescadoras e pescadores de açudes, construções artificiais projetadas para estancar as águas dos rios em grandes represas, que têm a aparência de lagos.

Infelizmente a vida dos pescadores artesanais, como a  dos pequenos agricultores, não é fácil em uma região onde o estado de emergência causado pela falta de água é uma rotina, as famílias têm que racionar o uso de água, e o gado morre desidratado.

Além dos problemas climáticos, os pescadores artesanais de água doce são uma categoria ainda mais em risco devido a um estado de total invisibilidade e abandono das instituições, o que favorece o enfraquecimento da identidade da pesca artesanal. Esses dois fatores, a seca e a falta de políticas para salvaguardar a sobrevivência dos pescadores, penalizam enormemente a situação social e económica, já caracterizada por altos níveis de pobreza, analfabetismo e violência de gênero.

A minha equipe trabalha para reafirmar e dar visibilidade à identidade de pescadoras e pescadores, já que muitas vezes eles e elas são impossibilitados de reivindicar seus direitos por falta de informação e porque estão excluídos dos espaços de representação, assim como das atividades das associações de pescadores artesanais locais. Além disso, tentamos destacar e reconhecer o papel das mulheres pescadoras em uma região onde o machismo e a violência doméstica, patrimonial e psicológica das mulheres é generalizada.

Muitas são as coisas para fazer no escritório e as viagens de campo são cansativas. Tantas horas para chegar até comunidades isoladas, o entusiasmo das pessoas quando percebem que sou estrangeira e as risadas dos jovens quando ouvem o meu português é muito engraçado. Essa é a situação que vivi as primeiras semanas; mas minha vida aqui também é caracterizada por novas amizades, pela capoeira, pela música do forró, pela comida que ainda me assombra e pelo calor abafante. A vida em Crateús é acompanhada pelo sol, símbolo do Brasil, e talvez seja graças a esse sol que as pessoas que conheci até agora me deram momentos de pura intensidade e alegria. O sol do Semiárido Brasileiro está me dando uma grande oportunidade, permitindo-me chegar aqui e satisfazer meu insaciável instinto de descobrir, observar e me disponibilizar para organizações alinhadas com os meus valores.

Ao mesmo tempo, o povo inculpa o quente e lindo sol para estar lentamente dissolvendo a vida das pessoas, as tradições e as fontes de subsistência delas. As pessoas pensam que ele está matando a vegetação e os animais, além de estar forçando os jovens a se mudarem para as grandes cidades e a renunciar à cultura e às atividades que as famílias vem realizando com dificuldade, mas com orgulho por gerações. Mais o problema daqui é bem diferente. O semiárido brasileiro não precisa de água, ele tem sede de mudança, de políticas públicas, os pequenos produtores querem aliviar as queimadas que se formaram no último século devido à políticas de prevenção inadequadas que apoiam as grandes empresas, e não as categorias mais vulneráveis.

E estou aqui, tentando do meu jeito e com humildade, contribuir para a mudança que todos esperam com impaciência, à espera de uma chuva de aprovação, de direitos e posições assumidas pelas instituições políticas, além da sociedade civil.

E entre um café e outro, interagimos observando os vaqueiros irem para casa com o gado, as mulheres costurando as redes de pesca, as crianças acompanhando os pais para pescar, com a esperança de que seja um dia de pescaria boa.

Em tudo isso somos acompanhados pelo forró de Luiz Gonzaga cantando assim:

[…]Espero a chuva cair de novo
Pra mim voltar pro meu sertão. […]

Por: Angelica Tomassini

Terapias integrativas: novos espaços para cuidado com a vida.  Profissionais Cubanos e Brasileiros terminam o curso de iridologia na Cáritas de Crateús

“Os olhos são a janela da alma e do corpo e vocês agora têm a missão com a cura e com a vida”. Com essas palavras o Presidente da Cáritas Diocesana de Crateús, Padre Géu introduziu a sua benção para o encerramento do curso de Iridologia. Foram 4 módulos, 96 horas de formação sobre o estudo da íris para a compreensão do nosso estado de saúde. Participaram 17 pessoas no total, dos quais 14 médicos cubanos que há anos fazem parte da comunidade da diocese.

Entre os participantes do curso, cabe destacar a história dos profissionais cubanos. Muitos se aproximaram da Cáritas antes de ficarem impossibilitados de participar do programa “Mais Médicos”, devido atrito político provocado com o governo do país caribenho. Por falta de oportunidades e de segurança sobre o futuro em Cuba, desde Novembro 2018, eles e elas estão à procura de melhores condições de vida, ao mesmo tempo que deixaram as comunidades do interior sem atendimento, porque os mesmos médicos que apoiam a postura do governo brasileiro e sempre foram críticos aos médicos cubanos não querem trabalhar nas comunidades mais distantes dos grandes centros.

“A Cáritas nos recebeu com muito amor, com uma acolhida maravilhosa, nunca nos fez sentir diferentes, nos dando oportunidades de formação para que tenhamos uma alternativa de vida aqui”, afirmou a médica Yasminia Queralta Tomasen. A situação desses médicos cubanos chamou muito a atenção da Diocese de Crateús, que nas pessoas do bispo Dom Ailton, do Presidente da Cáritas de Crateús, Padre Géu, e da coordenadora desta, a irmã Erbenia de Sousa estão fazendo todo o possível para que eles e elas tenham vida digna e possam seguir em frente com as próprias pernas.

Oferecer uma formação em terapias alternativas, desconhecidas para a sociedade como a iridologia, significa poder reafirmar a identidade desse povo e ampliar para eles e elas a possibilidade de atuar como terapeutas, opção permitida pela lei brasileira. “No começo para mim foi um desafio, pensei que não ia poder formar médicos estrangeiros nessa disciplina, mas o fato deles terem conhecimento no campo da medicina ajudou a aprender mais rápido e foi muito gratificante. Eles e elas já estão colocando em prática em laboratórios e estão prontos para começar a ser terapeutas” argumentou o professor do curso, Luis Henrique Aspahan Brandão. 

A cerimonia de conclusão do curso, com a entrega dos certificados foi um momento muito comovente acompanhado pela leitura do evangelho em espanhol e em português. Na homilia, Dom Ailton afirmou que quem cuida da saúde, especialmente ao exemplo dos cubanos e as cubanas que sempre atenderam o povo do interior, podem ser comparados ao Bom Samaritano, que tem cuidado com a vida sem distinção alguma. 

FRANCISCO, SIMPLESMENTE.

A noite que antecede a uma audiência papal é sempre muito tensa. É difícil encontrar um lugar na cama, o travesseiro parece ter espinhos. Você reflete o quê, como e por que dizer alguma coisa. Até que o cansaço vence a batalha pondo-lhe a dormir. Em tempo, o evento ocorreu no dia 5 de dezembro de 2018, motivado pela entrega de um ensaio denominado “As Cores da Laudato Sì”(1) em referência a primeira encíclica de Francisco.

No dia seguinte, a ansiedade nos fez acordar com os pássaros. O relógio exerceu uma pressão colossal. Para equilibrar, repetem-se hábitos normais como ir à banca de jornal, olhar a rua, sentir o vento no rosto. A sorte dos iniciantes, é que o encontro ocorre tradicionalmente às 10 da manhã. Como quem aperta os pés, o caminho para o Vaticano é feito a passos rápidos, conduzido pelo cosmopolita metrô de Roma. Apenas duas paradas depois, alcançamos a estação de Otavviano, onde iniciamos uma interminável caminhada de duas ou três quadras até cruzamos a praça do martírio de Pedro.

Já no círculo da praça, a ansiedade mistura-se a beleza arquitetônica de Bernini (2). A robustez dos nossos corpos espantam os pombos, mas não reduz a curiosidade sobre os 40 metros do obelisco pagão do século I colocado ali pelo papa Sisto V (3). Na mesma velocidade em que o vento gelado corta a pele, assumíamos lugar na fila de revista que antecede a entrada no Palácio Apostólico.

Com os convites em mãos, percebemos a gelidez da guarda oficial que impressiona os turistas, distraí os desavisados em fotos, e revela certa pompa. Guiados por esse aparato – que sempre faz questão de lembrar onde você está – nos mantivemos centrados tateando nas palavras que gostaríamos ver brotar daquelas fontes que ainda nos separava do salão oficial.

Àqueles jardins bem que haviam deixado rastros, mas vieram à tona somente quando Francisco já havia apertado nossas mãos. Esse momento é carregado de significado revelando-se numa áurea simples e amistosa, emoldurada pelo sorriso singelo de um padre atencioso. Longe da pomposa liturgia que o cargo ocupa, o anfitrião apresenta-se edulcorado, pronto para acolher. Nesse momento, sem refletir muito saiu a seguinte frase: “Francisco, obrigado por devolver a igreja aos pobres”.

Aqui duas reflexões se abrem: a primeira no voluntarismo que subitamente me tomou diante da maior autoridade da igreja católica. A segunda aponta para o conteúdo do agradecimento.

Pois bem, vamos à primeira. Usei o nome que o próprio papa escolheu por ocasião do conclave de 2013. Qual o mal nisso? Hoje, nenhum. Mas diante das caricaturas exigidas por seus antecessores, isso seria um sacrilégio. É preciso reconhecer ser pouco usual chamar sua santidade pelo nome, esse gesto resume um profundo sentimento de liberdade, apesar de denunciar a falta de atenção às aulas que ensinam os pronomes de tratamentos.

Esse fato remonta a sua eleição, antecipada pelo esgotamento clerical de tempos recentes. Lembro-me na oportunidade, fui perguntado qual o nome o papa deveria assumir? Prontamente argumentei: Francisco. Dias depois, Bergoglio abriria à necessária primavera na igreja. Em tempo, para aqueles que gostam de números, Francisco foi eleito no dia 13.3.2013, os números iniciais e finais da data vão indicar
algo muito interessante, que veremos nas linhas a seguir (4).

Retomando a tradição romana, um papa modifica seu nome desde o Século VI, na época em que Mercuriano percebeu que carregava na sua identidade uma homenagem ao deus pagão Mercúrio, o que não condizia com a função. Então decidiu adotar o nome de João II. O nome de um pontífice revela na partida suas intenções, por isso, jamais alguém ousou repetir o nome de Pedro, e talvez não se veja alguém reivindicando o nome de Alexandre VII, pelos inúmeros ilícitos cometidos por Rodrigo Borgia – o famigerado Alexandre VI.

Nesse sentido, o nome de Francisco aponta para um modelo de igreja renovada na própria espiritualidade do seu tempo. Nos remonta ao pequeno lugarejo de Assis, assenta pouso na negação da hierarquização da vida pelas posses, e revelar-se na constante busca da justa medida da ecologia e da paz.

A aproximação de Francisco revela um simples vigário vestido de branco que abandona os títulos inerentes ao cargo para destilar olhar generoso capaz de exalar emoção. O encontro ocorre em minutos. Considerando que um bispo tem cinco minutos a cada cinco anos, àqueles momentos diante de Francisco é uma eternidade. Óbvio que no afã de dizer tudo, não se diz nada e o momento se eterniza muito mais pela ambiência do que propriamente pelas palavras. Ao se deixar tocar, e depois de escutar os motivos que nos levaram ali, o padre generosamente pediu que continuássemos e nos abençoou.

Aqui convido a refletir a segunda parte da frase: “obrigado por devolver a igreja aos pobres”. Inicialmente é preciso reconhecer o longo caminho a percorrer nesse sentido, mas já existem bons indícios a comemorar. Em síntese, Francisco influência decisivamente, em pelo menos três áreas importantes: gênero, pobreza e o modelo de gestão. Vamos a cada um deles.

Após um rigoroso inverno (5), somente um gesto radical seria capaz de devolver à mulher o papel central na igreja. Nesse ponto, Francisco faz história ao encaminhar outra lógica de relação com o feminino. Isso ocorre, sobretudo quando busca retirar o obscurantismo que a história impôs ao gênero. Como que um noivo amoroso Francisco retira-lhe o véu de viúva e devolve-lhe a grinalda de noiva.

Parece que o número 13 é caro a Francisco. Apenas três anos após sua eleição (6), o papa devolveu a grinalda da história a Maria Madalena restabelecendo sua condição original de apóstola ao nomeá-la a 13ª apostola. Francisco a chamou de “apóstola dos apóstolos”. Com isso regressou ao inicio da tradição cristã quando as mulheres
ocupavam papel decisivo.

Quanto aos pobres, sabe-se que desde 1980, padres franceses protestam contra condição de pobreza das pessoas, mas somente em 19 de novembro de 2017, esse ato passou a figurar na agenda do Vaticano. Nesse dia, um banquete é servido a 1500 convidados especiais. Entre um Francisco estão os mendigos, os sem abrigos, os não cidadãos e os refugiados.

Hoje, quem vai ao Vaticano um pouco mais atento percebe mudanças substanciais. Se antes o visitante era recebido pela gelidez da guarda suíça, agora o auxílio amistoso vem de algum trabalhador imigrante, cujo estereótipo revela a verdadeira mudança de sentido. E não se trata de ação isolada! Se na idade média a igreja se financiava a partir de “benções” especiais, hoje a aquisição de um papiro assinado por Francisco é destinado a suportar a aquisição de remédios e roupas para os mendigos dos arredores de Roma. Antes que alguém possa caracterizá-lo pela pecha do fisiologismo, não é raro ouvir rumores de que o papa indica vender os bens da igreja
para dar aos pobres (7). Para ele “o verdadeiro bem cultural da igreja são os pobres”.

Finalmente passamos a refletir a mudança de posição quanto ao modelo de gestão. Aqui nos referimos especialmente ao Banco do Vaticano. Essa instituição foi criada pelo papa Pio XII, no tumultuado contexto político e econômico (8) dos anos 1940. Durante muito tempo foi assaltada pelas oligarquias europeias, fazendo supor um verdadeiro paraíso fiscal. Revelando-se em profundas disputas políticas, o banco ficou famoso no filme “o Poderoso Chefão III”, ao narrar às tramas sustentadas em denuncias de que a máfia abreviara a vida de João Paulo I.

Ao ser indagado sobre o modelo institucional que o banco deveria adotar, Francisco deu seu tom ao assunto: “Jesus não possuía conta bancária”, e não ficou na retórica, sabe-se da nomeação de um grupo para reestrutura-lo na perspectiva dos Bancos Solidários, o que consiste estabelecer outro sentido à questão.

Outro ponto digno de nota quanto ao modelo de gestão consiste observar a trajetória realizada por um poder próximo a sucumbir. A receita diplomática indica aliança com outro poder maior. Em regra geral, abre-se mão de valores culturais, bens materiais e até de vidas. Todavia, diante desse cenário Francisco seguiu outra cartilha, abandonou o formalismo, abriu as portas aos desvalidos e jogou luz aos mais pobres entre os pobres. Precisava um papa vir do fim do mundo, para restaurar a ousadia da igreja primitiva.

O modelo de Francisco é feito um lindo buquê colorido – tecido com flores simples por mãos imigrantes – que reestabelece as pazes com a teologia que liberta, reposiciona a igreja na sua dimensão profética e insere-se na complexa modernidade, para finalmente dizer o óbvio.

Quem leu a Laudato Sí, percebeu que sua prática já era a muito realizada nas periferias do mundo. Então para que a carta? Para reposicionar as estruturas historicamente dadas em relações patriarcais e coloniais. Isso consiste mudar a rota do poder? A história contará.

Os hábitos de um papa não deveriam impressionar dado que o cargo reivindica ser “o servo dos servos”. Entretanto, essa postura não estava na agenda oficial, Francisco desde Buenos Aires, usava transporte público e mantinha-se longe dos palácios reais. Não foi seduzido por motorista particular ou carro próprio. Feito um simples padre sempre cultivou hábitos modestos: “Era difícil olhar para ele e ver um cardeal (9)” afirmou um garçom que servia café a Bergoglio, pontualmente às 8 da manhã, próxima a catedral Metropolitana de San José Martin. O momento que seguiu sua eleição foi marcado por um gesto humilde, inverteu a ordem e deixou-se ver de cima.

Pedindo oração, ajoelhou-se frente ao público e inaugurou nova relação com os fiéis – ouso dizer estamos diante de um fato inédito. Por isso, queremos registrar a alegria de ter encontrado a justa medida das palavras que marcaram esse momento. Dizer ainda da sensação jocosa de não termos sido recebidos em audiência por um papa, acreditamos mais na ideia de termos sido recebidos por um modelo de igreja, a quem agradecemos por ter devolvido aos pobres a
esperança de ter uma igreja.

Notas:

1 O autor lança mão de um ensaio original para contextualizar a Laudato Sí a partir das dinâmicas politica, econômica, tecnológica e da dimensão da fé, dentro da dimensão local e regional da América Latina.
2 Artista plástico do século XVII.
3 Pontificado do Papa Sisto V – 1585 a 1590.

4 A relação entre números e fatos é aqui é apenas figura de linguagem.
5 O autor se refere aos papas João Paulo II e Bento XVI.
6 Ver em http://www.ihuonline.unisinos.br/media/pdf/IHUOnlineEdicao489.pdf

7 Ver mensagem aos funcionários do Pontifício Conselho para Culturas em https://www.informamais.pt/papa-sugere-vender-bens-da-igreja-para-ajudar-pobres/
8 Período de Guerra e fortes tenções com o modelo capitalista baseado no Liberalismo.
9 Relato foi extraído presencialmente por mim por ocasião de uma visita a Buenos Aires.

Capa do livro:

Por Rafael dos Santos da Silva, professor UFC-Crateús.
Doutorando em Sociologia pela Universidade de Coimbra.
Contribui com os Movimentos Sociais nas áreas de formação política, econômica e sociológica.