Chuva no sertão

No Sertão está chovendo.

Há seis meses que não via chuva tão fina e com um cheiro tão fresco. Seis meses sem ter medo de pendurar as roupas para secar e encontrá-las molhadas, sem me preocupar em esquecer o guarda-chuva ou em temer de acordar de manhã e descobrir tristemente que está a chover.

Os Crateuenses perceberam que a chuva estava chegando já ontem ao pôr do sol. Eu caminhava pelas ruas da cidade, em uma tranquila tarde de domingo, mas sentia que havia algo diferente no ar… notei as crianças ouvindo seus avós e olhando para o horizonte, as senhoras recolhendo as roupas penduradas, os meninos estacionando as motocicletas em casa.

Eu não entendia o que era, mas senti uma vibração diferente, senti nas pessoas a emoção de quando nosso cantor favorito chega na cidade ou como quando a pessoa que amamos volta após uma longa ausência. Não prestei atenção e continuei caminhando em direção à casa, sob os olhos curiosos dos moradores da Rua Frei Vidal da Penha, que nesses seis meses me acompanharam com o olhar e com um sorriso.

Estou prestando Servizio Civile Nazionale no projeto Pescadoras e Pescadores Artesanais construindo o bem-viver, nascido da colaboração entre a Cáritas de Crateús, o CISV e o Conselho Pastoral dos Pescadores, com a ajuda financeira da União Europeia e da Conferenza Episcopale Italiana

O projeto trabalha com pessoas que até alguns anos atrás eram completamente invisíveis aos olhos das comunidades e das instituições que as cercam, já que para quem mora em uma região onde não se fala de nada além da seca, é difícil acreditar que tem pescadores e pescadoras que lutam todos os dias para se sustentar e para não deixar desaparecer á arte da pesca artesanal. E realmente lutam, não apenas com palavras. Nestes anos, os pescadores e pescadores de açude perceberam que essa profissão é digna de direitos e políticas, assim que começaram se organizando e pouco a pouco emergiram da invisibilidade profissional e da escassez de políticas públicas  que os caracterizavam.

As pescadoras hoje têm autoestima e sabem que o sustento das suas famílias também depende delas. Elas não têm mais medo de sair de casa para participar nas atividades que as fazem se sentir bem; ensinaram aos maridos, aos filhos e as filhas a cuidar de si mesmos por alguns dias. Os pescadores enfrentaram a ideia de que as esposas não são propriedade deles e que, se o trabalho ancestral da pesca artesanal ainda existe, é também graças às mulheres. 

Hoje chove no Sertão e, nesta manhã, quando abri a janela, entendi imediatamente de onde vinha a emoção que ontem aparecia nas ruas de Crateús. Coisa de sertanejos, de Cearenses, de interior nordestino; quando chove, ninguém fala de outro assunto. “Não há nada melhor do que ver um açude que enche”, disse-me um pescador. E outro fã de futebol acrescenta: “A chuva é meu gol, é minha Copa do Mundo!”

Não tem preço a ternura que se sente ao ver o olhar aliviado dos idosos, a felicidade das crianças que saem da escola dançando baixo da chuva e o brilho nos olhos de quem observa o céu nublado. Mas não se pode negar que a aridez está cegando o povo nordestino. A seca sertaneja é um problema ambiental que tem repercussões na agricultura e na pesca, causando uma vulnerabilidade social que agora se transformou em um problema político. A estiagem trouxe pobreza e êxodo rural para os grandes centros urbanos, mas não é a única causa pela qual o Ceará é o terceiro estado mais pobre do Brasil e com uma taxa de analfabetismo muito alta.


A desigualdade de riqueza, a distribuição da terra, a falta de políticas públicas e de prevenção fazem parte do “mito da seca”. A maioria dos habitantes não vê ou prefere abaixar os olhos diante da dramática especulação que grupos poderosos de empresários e políticos vêm realizando há anos, explorando o fenômeno para seus próprios interesses econômicos e políticos. A população do Nordeste não precisa de água, mas de soluções que resolvam sua má distribuição e melhorem seu uso. Através da educação infantil nas escolas, é urgentemente necessário desmerecer a história de que a estiagem é a principal causa de pobreza e miséria que paira sobre o território, ou o mito dessa continuará obscurecendo as gerações futuras.

E eu estou aqui há seis meses, um tempo que passou em um piscar de olhos, entre diferentes culturas, mal-entendidos, brincadeiras e abraços. Houve momentos em que desfrutei duma inesquecível sensação de liberdade e felicidade, e outros em que chorei de tristeza e frustração. Vivi pequenas e grandes experiências que me acompanharão ao longo da minha vida, aprendi que a pobreza não existe até que haja solidariedade, que às vezes é necessário um pequeno empurrão para seguir adiante com lucidez e que as injustiças sociais chovem com mais freqüência nas pessoas mais vulneraveis.

No Sertão a chuva está de volta, fraca e calma, porém chuva é! E enquanto escrevo estas poucas linhas, percebo que, para a sociedade sertaneja, a emoção da chuva fresca que contrasta com o sol sufocante é como uma metáfora poética, é um filho que volta para casa depois de anos na cidade, é uma pescadora que frita o peixe recém pescado, é um agricultor que semeia as sementes para cultivar um novo ciclo de vida, é um rádio em um barzinho do interior do Sertão que canta assim:

“Rios correndo

As cachoeira tão zoando

Terra moiada

Mato verde, que riqueza

E a asa branca

tarde canta, que beleza

Ai, ai, o povo alegre

Mais alegre a natureza”

Por: Angelica Tomassini, Voluntária Italiana

Fotos: Lorenza Strano, assessora de comunicação Cáritas de Crateús